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Estilos de aprendizagem

Publicado em 06/11/2016 às 21:34:56

Os estilos de aprendizagem definem a forma como conseguimos estudar ou aprender novas informações de forma mais fácil e proveitosa. O mais conhecido deles aponta que os aprendizes são visuais, auditivos ou cinestésicos e que cada pessoa apresenta mais facilidade em um determinado estilo de aprendizagem e mais dificuldade em outros. Essa é uma teoria amplamente difundida, mesmo entre o público leigo e é bastante provável que você já tenha ouvido falar alguma coisa dela.

O que acontece é que existe uma polêmica sobre eles no meio científico e é sobre isso que eu falo na videoaula a seguir:

 

Estilos de Aprendizagem X Teoria Científica

O modelo dos estilos de aprendizagem que divide os aprendizes em auditivosvisuais ou cinestésicos não é único existente, apesar de ser o mais conhecido. Na verdade, existem dezenas de modelos estudados por diferentes grupos de Psicologia Cognitiva. No entanto, os profissionais da Neurociência, principalmente aqueles ligados a Neurociência na Educação, dizem que os estilos de aprendizagem não são válidos como uma teoria científica. Eles têm algumas argumentações para isso – entre elas, o fato de que estes modelos não são testáveis.

Acredito que essa argumentação está voltada para o campo da estrutura do conhecimento e da hermenêutica, e não no campo da utilidade prática de estudo. É uma argumentação um pouco complexa (dica: se você tiver interesse nela, você pode ler o livro do cientista cognitivo Daniel T. Willingham “Por que os estudantes não gostam da escola?”). Mas essa não é a questão.

A principal questão aqui é tentar entender um pouco dessa polêmica para descobrir o que há de bom e interessante nos dois lados da discussão, principalmente do ponto de vista daquilo que a gente pode aplicar em nossa aprendizagem.

A seguir, vamos discutir a localização física no cérebro das memórias de curto, médio e longo prazo. Cada lembrança que você tem pode estar em uma dessas memórias e cada uma delas tem um lugar no cérebro em que ela acontece.

Memória de Curto Prazo

Como o próprio nome diz, é aquela memoria que dura muito pouco: de alguns segundos a, no máximo, alguns minutos. Ela também é chamada de memória de trabalho e a sua localização física é o lobo pré-frontal que fica na frente do cérebro, mais ou menos atrás da nossa testa.

O lobo pré-frontal é uma área do cérebro muito focada no raciocínio, ou seja, se a gente precisa raciocinar sobre algo que esteja acontecendo neste exato momento, a gente traz algumas informações para a memória de trabalho e as usa para realizar o raciocínio que a gente precisa.

A memória de trabalho, além de ser uma memória de curto prazo, também tem a limitação de ser muito pequena. Os primeiros estudos acerca de quantos itens a gente consegue manter, ao mesmo tempo, dentro da memória de trabalho indicava que esse número girava em torno de 7 itens de informação. Se considerarmos uma margem de dois itens para mais ou para menos, que varia de pessoa para pessoa, teremos algo entre 5 e 9 itens que gente consegue gerenciar dentro da nossa memória de trabalho.

Alguns estudos mais recentes mostram que talvez essa memória de trabalho seja ainda menor e que o número de informações que somos capazes de processar ao mesmo tempo esteja mais para 5 do que para 7. Então seria alguma coisa entre 3 e 7 ao invés de 5 e 9.

O que isso significa? Se uma determinada tarefa exigir mais que 7 itens de informação, será necessário “tirar” algumas coisas da nossa consciência para poder trazer outras informações relacionadas a essa tarefa. Começa a ficar difícil raciocinar sobre o tema.

Independente do número, temos que considerar que este é um espaço bem pequeno. E, infelizmente, nós não temos conhecimento de mecanismos para ampliar a memória de trabalho de maneira significativa. O que existe são formas de aumentar o tamanho de cada item por meio de mecanismos de agrupamento. Nós usamos esses mecanismos naturalmente para conseguir fazer raciocínios cada vez mais complexos, mas, na prática, estamos sempre trabalhando com poucos elementos de cada vez.

Memória de Médio Prazo

Geralmente não se fala muito da memória de médio prazo. Essa é a memória das informações que você está tentando enviar para a memória de longo prazo, ou seja, daquilo que você está estudando, repetindo e revendo. Ela também tem uma localização bem específica: o hipocampo, uma área do cérebro que fica atrás dos lobos temporais.

hipocampo é a área responsável por fazer associações entre as diversas informações sensoriais que recebemos o tempo todo através da visão, audição, tato e assim por diante. Essa infinidade de informações passa pelo filtro do hipocampo que, por sua vez, seleciona aquilo que ele considera importante ou não para enviar para a memória de longo prazo.

Uma coisa interessante é que o hipocampo está dentro do sistema límbico, que é o responsável pelas emoções (apenas os mamíferos têm um sistema límbico desenvolvido).

Isso explica porque as emoções, tanto as positivas quanto as negativas, tem um papel fundamental na memorização e afetam a forma como você memoriza qualquer coisa.

Portanto, fica uma dica para você usar no seu dia a dia: busque quais emoções estão relacionadas com aquilo que está estudando para que isso facilite a seleção de informações pelo hipocampo e sejam enviadas mais rapidamente para a memória de longo prazo.

Outra função do hipocampo é a localização espacial. O nosso senso de localização está ligado ao funcionamento do hipocampo e isso explica porque um dos métodos de memorização avançada mais conhecidos é o Palácio da Memória. Nele, você associa os elementos que você quer memorizar a determinados pontos nos espaço físico e isso reforça o fato de que nós somos muito bons na questão da localização espacial por uma questão evolutiva.

Memória de Longo Prazo

Essa é a parte da memória que os cientistas menos conhecem e têm mais dificuldades para estudar. Um dos motivos é porque a memória de longo prazo não está localizada em nenhuma área específica do cérebro como as memórias de curto e médio prazo.

Quando um indivíduo está acessando uma memória de longo prazo, vários pontos do cérebro são ativados – isto pode ser visto por imagens de ressonância magnética funcional

Então, se eu estou racionando alguma coisa agora, o que é mais ativado é o meu lobo pré-frontal. Se eu estou fazendo algum tipo de revisão, eu ativo bastante a região do hipocampo. Mas, se eu estou acessando uma informação já bastante consolidada na memória de longo prazo, várias regiões do meu cérebro são “ligadas” ao mesmo tempo.

A memória de longo prazo está espalhada por aquilo que a gente chama de neocórtex que é a área mais externa de todo o cérebro. O nosso cérebro foi evoluindo de dentro para fora ao longo da nossa evolução como espécie. A área mais recente e que nos torna mais evoluídos em relação as demais espécies é justamente o neocórtex.

Como o cérebro têm localizações para certas funções, você vai ter uma memória de longo prazo associada a vários tipos de informações. Por exemplo, se você “puxa” uma lembrança qualquer da memória de longo prazo, você “acende” áreas ligadas à memória visualmemória motoramemória auditivalinguagem e assim por diante. Este modo de operar da memória de longo prazo serve como confirmação para o fato de que a nossa memória é associativa. Quanto mais associações de diferentes naturezas nós temos sobre uma determinada informação, mais a memória desta informação se consolida na nossa mente.

E é justamente isso que as ressonâncias estão mostrando: uma memória realmente estabelecida e consolidada tem muitas conexões com várias áreas do nosso cérebro responsáveis por várias funções e por várias memórias sensoriais.

E aí que você pode me perguntar: “Tá… mas e daí? O que isso tem a ver com aquele assunto inicial que são os estilos de aprendizagem?”.

Neurociência e Estilos de Aprendizagem

As teorias de estilo de aprendizagem separam os tipos de aprendizes em diferentes estilos. Como eu disse acima, a mais conhecida é a teoria do autor Walter Barbe, que é bem difundida e aponta que existem aprendizes que tem um foco na aprendizagem pelo canal visual, existem outros que são mais cinestésicos, ou seja, trabalham mais com o tato e com as sensações do corpo e tem aqueles aprendizes que são mais auditivos e conseguem aprender melhor pela audição.

Porém, existem muitas outras teorias de estilos de aprendizagem. Eu não vou escrever sobre todas aqui, mas eu vou apresentar mais uma para que você tenha uma ideia de que existem outros modelos. Aliás, a ciência toda é construída assim: uma pessoa ou um grupo de pessoas percebe que existem alguns padrões acontecendo e tentam organizá-los dentro de um modelo.

Reflexivos, teóricos, pragmáticos e ativos

Os pesquisadores Peter Honey e Alan Mumford criaram outro modelo em relação aos tipos de aprendizagem. Eles dividiram os aprendizes em quatro tipos: reflexivos, teóricos, pragmáticos e ativos.

  • Os REFLEXIVOS são aqueles que estão sempre perguntando o PORQUÊ das coisas. Eles precisam ter essa informação, caso contrário se sentem perdidos na aprendizagem.
  • Os TEÓRICOS são aqueles que gostam de ir a fundo na teoria e conhecer todos os conceitos presentes nela, por isso eles estão sempre perguntando O QUE.
  • Os PRAGMÁTICOS são aqueles que querem saber a “receita do bolo”. Eles perguntam o COMO e gostam de receber o passo a passo para fazerem algo ou resolverem um problema prático.
  • Os ATIVOS estão sempre se perguntando E SE… “E se eu fizesse tal coisa…?”, “E se acontecesse isso ou aquilo…?”. Esse é o tipo de aprendiz que precisa colocar a mão na massa para realmente sentir que entendeu aquela nova informação.

Com isso, você vê que essa é outra teoria que também faz bastante sentido se você começar a observar a maneira como as diferentes pessoas aprendem. Tanto este modelo quanto a teoria dos visuais, auditivos, cinestésicos observam a natureza da aprendizagem de pontos de vista diferentes.

Entretanto, alguns neurocientistas dizem que estes modelos não são válidos como teoria científica porque não podem ser testados de maneira rigorosa (aliás, é difícil testar rigorosamente qualquer coisa que envolva a mente humana).

Por outro lado, os modelos apresentados têm mostrado muita utilidade prática, SE USADOS COM CUIDADO. Não se pode imaginar que uma pessoa vai aprender exclusivamente por um único canal, por mais que ela tenha uma acuidade visual muito boa ou um ouvido muito bom. Nem que ela vá aprender só colocando a mão na massa sem conhecer nada da teoria.

E por que eu digo isso? Justamente por causa da memória de longo prazo, que como vimos, está espalhada pelo cérebro. Se você quer realmente consolidar uma informação, você não pode pegá-la por um único canal ou uma única fonte… você tem que usar o máximo possível de associações que você puder – e, de preferência, ligadas aos diferentes sentidos, estilos e pontos de vista.

Por exemplo, se você aborda um conhecimento que você quer aprender e só pergunta o “porquê” dele, a compreensão dele vai ficar um pouco capenga na sua mente. Mas se você perguntar por queo que como e o conhecimento for aplicado na prática, você terá uma aprendizagem muito mais completa.

A mesma coisa acontece se você pegar uma informação e estudá-la em um material que tenha um caráter mais visual e depois observar essa mesma informação dentro de um ambiente mais cinestésico, onde você pode sentir aquela informação, ou ouvir coisas sobre ela.

Você estará criando uma série de conexões que vão mexer com diferentes partes do seu cérebro e isso estará ajudando a sua memória a caminhar do médio prazo ruma a uma memória efetivamente consolidada a longo prazo.

Memorização eficiente usando (bem!) os estilos de aprendizagem

Acredito que a polêmica levantada pelos neurocientistas sobre estilos de aprendizagem muito teórica e distante da realidade de quem estuda. Na verdade, pelo que se vê na prática, é preciso construir o maior número possível de associações para conseguir memorizar com facilidade. Quem já experimentou qualquer tipo de técnica de memorização ou de aprendizagem sabe disso: quanto mais associações você faz com aquela informação, mais fácil será para você consolidá-la na sua memória.

No final das contas, eu estou com a Martha Gabriel, que no livro “Educ@r: A (r)evolução digital na educação” comenta que a gente não pode ficar esperando os cientistas validarem as teorias até a última gota de dúvida ser resolvida para mudar a maneira de ensinar e aprender.

Então fica aí minha dica para você: explore um conhecimento de diferentes pontos de vista, faça diferentes perguntas e, a partir disso, você vai conseguir criar uma memorização de longo prazo muito mais consistente do que se você ficar usando apenas um canal que alguém ou algum teste lhe disse que é o seu canal preferencial de aprendizagem.