Imagem de topo do banner

A história que começou com um executivo indignado e terminou com um salto na qualidade do ensino de

Publicado em 01/03/2019 às 15:01:29

Um programa no ensino público em Pernambuco levou Ania Yolandy a estudar no Canadá. A aluna voltou com novas ambições (Foto: Eduardo Siqueira)ASAS Um programa no ensino público em Pernambuco levou Ania Yolandy a estudar no Canadá. A aluna voltou com novas ambições (Foto: Eduardo Siqueira)

Logo na entrada da Escola de Referência em Ensino Médio (EREM) Professora Rita Maria da Conceição, em Orobó, a 103 quilômetros de Recife, um cartaz com letras douradas dá o recado: “Educação de qualidade é o portão de embarque para um futuro melhor”. A metáfora não é casual. Em 2017, um primeiro grupo de 15 alunos com idades entre 15 e 17 anos teve a chance de estudar seis meses fora do Brasil, por meio de um programa de intercâmbio patrocinado pelo governo estadual. Criou-se quase que uma ponte aérea — desde que o programa foi criado, mais de 6,5 mil estudantes pernambucanos foram beneficiados.

Para chegar lá, cursam inglês, espanhol ou alemão por um semestre. Depois, passam por um processo seletivo que dá o direito de estudar em lugares como Austrália, Canadá, Estados Unidos ou Nova Zelândia. Essa é uma entre várias iniciativas que compõem o modelo de ensino em tempo integral adotado na escola. Os bons resultados são visíveis. Sua pontuação no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) é 5,2, bem à frente do nível nacional (3,5) e pernambucano (4,0), colocando a EREM Rita Maria entre as dez melhores do estado. A taxa de abandono é zero, enquanto a aprovação chega a 96%. Por trás da implementação bem-sucedida, além do esforço dos alunos, há uma parceria entre professores, gestores públicos e iniciativa privada.

Na origem do projeto está o Ginásio Pernambucano, segunda escola pública mais antiga do país. Abrigou estudantes ilustres como Ariano Suassuna, Clarice Lispector e Epitácio Pessoa. No entanto, no fim dos anos 90, a situação do prédio era de abandono: salas vazias, danos estruturais, livros pelo chão, equipamentos quebrados. A situação deixou indignado um ex-aluno — Marcos Magalhães, então presidente da Philips para a América Latina. “Em 1999, passei por acaso em frente ao Ginásio. Estava abandonado, caindo, literalmente. Parti, então, para uma iniciativa de reunir empresários e executivos em torno da recuperação”, conta.

David Saad, do Instituto Natura (Foto: Divulgação)David Saad, do Instituto Natura (Foto: Divulgação)

Marcos Magalhães, do Instituto de Corresponsabilidade pela Educação (ICE) (Foto: Divulgação)Marcos Magalhães, do Instituto de Corresponsabilidade pela Educação (ICE) (Foto: Divulgação)

Igor Lima, do Instituto Sonho Grande, atuou na transformação do ensino em boa parte da rede pública em Pernambuco (Foto: Fabiano Accorsi)E Igor Lima, do Instituto Sonho Grande, todos os três atuaram na transformação do ensino em boa parte da rede pública em Pernambuco (Foto: Fabiano Accorsi)

Marcos conseguiu engajar um grupo para viabilizar a reforma. Quando a obra estava perto do fim — o trabalho terminou em 2003 e a reinauguração ocorreu em 2004 —, percebeu que de pouco adiantaria um prédio novo com os mesmos vícios. “Apenas salvar o edifício não era suficiente. Vimos a necessidade de transformar a escola em um case, com uma nova visão — e isso virou a causa da educação brasileira, do Ensino Médio e do tempo integral.” Daí veio a ideia de usar o Ginásio como laboratório de um novo modelo pedagógico. Até aquele momento, o trabalho de reforma do prédio havia sido da Associação dos Amigos do Ginásio Pernambucano, criada em 2000, com executivos de Chesf, Odebrecht e do Banco ABN Amro. Esse foi o embrião do Instituto de Corresponsabilidade pela Educação (ICE), fundado em 2003, que hoje replica o modelo integral em todo o país por meio da articulação entre poder público e iniciativa privada.

Em Pernambuco, há escolas integrais (com carga de 45 horas por semana) e semi-integrais (de 35 horas por semana), que podem ser de turno único ou duplo. Em áreas de perfil rural, o estudante que trabalha pela manhã pode entrar em sala às 14h30 para sair às 20h40. Ou começar as aulas às 7h para sair às 14h — e, então, exercer outras atividades. Durante a manhã, os jovens cursam as disciplinas tradicionais. Após o almoço, participam de projetos, oficinas e outras iniciativas interdisciplinares, como robótica, programação e empreendedorismo. Estas atividades eletivas são construídas em conjunto pelos gestores, os professores e os alunos.

O conceito de educação integral adotado não se restringe a manter o aluno por mais tempo na escola. A gestão diferente está no cerne do programa. Todas as escolas, gestores, professores e alunos estão submetidos a um plano que passa por avaliações bimestrais. As metas de cada escola e gerência regional são definidas em conjunto com a equipe da secretaria. Há um mecanismo de bônus variável para quem atinge o que foi traçado. “Olhamos para diferentes indicadores: resultados educacionais, participação familiar, frequência dos professores, cumprimento do conteúdo, entre outros”, detalha o secretário de Educação de Pernambuco, Frederico Amancio.

a história que começou com um executivo indignado atraiu empresas e políticos de boa vontade. resultado: um salto gigante na qualidade do ensino (Foto: Eduardo Siqueira)

Além disso, como explica Maria Medeiros, secretária-executiva do programa em Pernambuco, o modelo se apoia nas escolhas do adolescente. “O foco é na construção do projeto de vida de um indivíduo protagonista, autônomo, solidário, competente e ativo.” Essa orientação deriva do conceito de ensino desenhado por especialistas que participaram da revitalização do Ginásio. A experiência avançou sem grande escala por quatro anos, até que a educação integral se transformou em lei, por obra do então governador Eduardo Campos (morto em 2014 num acidente de avião, quando concorria à Presidência da República). Para o secretário de Educação, esse foi o ponto de virada para a massificação do modelo. “Deixou de ser projeto para virar política pública, com garantia de continuidade”, afirma.

Atualmente, 54% das escolas em Pernambuco seguem o modelo, e os resultados se espalharam. O Ideb do estado saltou de 2,7 em 2007 para 4,0 dez anos depois, sendo o único, junto de Goiás, a bater a meta do Ministério da Educação todo ano. Hoje, é o terceiro do país, acima da média nacional. A taxa de abandono despencou de 24% para 1,5% em 2017, e o número de alunos na série correta para a idade saltou de 30% para 70%. Há pelo menos uma escola de referência por cidade — inclusive em Fernando de Noronha.

Marcos, do ICE, explica que a entidade atuou mais diretamente no estado até 2008, ao longo do período em que o modelo foi concebido, implementado como piloto e teve seu futuro planejado. A partir daí, a Secretaria tomou as rédeas e o fez avançar muito bem. “Do ponto de vista de operação da rede, a autonomia é da Secretaria. Atualmente, visitamos e conferimos o status do modelo”, diz Marcos. “Ao longo dos últimos anos, o conceito evoluiu e acabamos de participar de uma reformulação no currículo de Pernambuco.”

Alunos trabalham em projetos de robótica na Escola Estadual Professora Rita Maria da Conceição, em Orobó (PE). As disciplinas eletivas são decididas em debate na própria escola (Foto: Eduardo Siqueira)O QUE FAREMOS DEPOIS Alunos trabalham em projetos de robótica na Escola Estadual Professora Rita Maria da Conceição, em Orobó (PE). As disciplinas eletivas são decididas em debate na própria escola (Foto: Eduardo Siqueira)

O engajamento do setor privado continua a influenciar a expansão da política. Um parceiro próximo do governo estadual é o Instituto Sonho Grande (ISG), idealizado por Marcel Telles e presidido por Igor Lima, ex-vice-presidente da Kroton, com passagens por Harvard e McKinsey. O ISG faz estudos para avaliar resultados e aumentar o impacto da iniciativa. Fascinado por números, Igor explica que o custo real do Ensino Médio em tempo integral é apenas 14% superior ao das outras escolas. “Não é um número alto, ainda mais quando se percebe que o custo por aluno formado diminui, assim como os gastos com repetência, abandono e outros problemas”, lembra. O ISG planeja lançar um estudo em 2019 sobre os egressos do modelo, para avaliar o destino dos estudantes. Igor antecipa: “Já é possivel ver as diferenças. Entre dois alunos de ensino superior, o que cursou em tempo integral ganha mais”.

Outra instituição que se junta ao projeto em Pernambuco é o Instituto Natura, cujo foco também é educação. David Saad, diretor-presidente, lembra que os estados menos ricos são os que mais desenvolvem o modelo — o que mostra ser uma ferramenta eficaz para combater a desigualdade. A experiência de sua organização em quase 2 mil municípios o leva a crer também que a chave do êxito não é empresas e institutos privados tentarem realizar seus próprios projetos, mas sim apoiar uma política pública existente e “baseada em evidências de bons resultados”.

A proposta de Pernambuco está em linha com o que pensa Naercio Menezes, pesquisador do Insper. O especialista afirma que, segundo as evidências existentes, mais horas têm impacto sobre o aprendizado, embora parte do tempo disponível deva ser usada com reforço de português e matemática, além de outras matérias essenciais. “Só mais tempo não resolve nada”, alerta.

a história que começou com um executivo indignado atraiu empresas e políticos de boa vontade. resultado: um salto gigante na qualidade do ensino (Foto: Eduardo Siqueira)

A autonomia de gestão também é um elemento de sucesso de acordo com Naercio. “É importante que a escola possa resolver seus problemas com as próprias pernas. Mesmo assim, essa liberdade não é completa por conta das regras burocráticas do Estado.” O princípio da gestão eficiente também se aplica, segundo Naercio, ao volume de dinheiro à mão, já que estados menos abastados conseguem resultados acima da média. “Com boa gestão você consegue fazer muito mais com os recursos disponíveis. Há por aí muito desperdício, programas sem resultado, dinheiro gasto sem avaliação de programas.”

Professores como Wlademir Vasconcelos, de Olinda (PE), são avaliados regularmente e recebem bônus por desempenho (Foto: Eduardo Siqueira)EMPENHO Professores como Wlademir Vasconcelos, de Olinda (PE), são avaliados regularmente e recebem bônus por desempenho (Foto: Eduardo Siqueira)

O secretário Frederico Amancio ressalta o que considera boas características do modelo de tempo integral em Pernambuco, como ser cuidado por uma equipe própria. As parcerias com as organizações privadas não envolvem transferência direta de dinheiro, mas garantem capacidades complementares e aporte contínuo de dados e análise. Desde 2016, o Instituto Natura fez estudos sobre estimativa de custos da universalização do sistema até 2024, listou as escolas que poderiam ser convertidas com maior eficiência, estimou a quantidade de transferências de alunos necessárias, levantou os fatores de sucesso e os desafios do modelo em Pernambuco (para orientar demais governos estaduais), entre outros.

Por isso, Amancio considera a parceria vantajosa e vem tentando envolver empresários locais. “Nos últimos dois anos, fizemos seminários focados no meio empresarial, convidando movimentos que se engajaram com a educação em outros estados, como Santa Catarina e Espírito Santo”, diz. Para os jovens de 15 a 17 anos estudantes da maioria das escolas públicas em Pernambuco, experiências como estudar no exterior transcendem a imaginação e a realidade local.

Em Orobó, onde fica a EREM Maria Rita, 64% da população está na área rural e 80% não tem acesso a saneamento. A renda média dos trabalhadores formais no município é de 1,6 salário mínimo. Num cenário assim, Maria Fernanda Batista, de 17 anos, aluna do último ano do Ensino Médio, teve a chance de passar um período no Canadá. “Você vai para um mundo novo, uma outra cultura. Quando volta, tem uma percepção totalmente diferente sobre onde vive.” Para ela, a conquista é um meio de realização não apenas individual, mas da família. Seu pai, analfabeto, foi um dos incentivadores da viagem e persuadiu outros responsáveis a autorizar a ida dos filhos para o exterior.

As histórias bonitas se multiplicam. Na EREM de Paulista, região metropolitana da capital, o clube de programação Pernambucoders atraiu Maria Letícia Manguinho, de 15 anos: “Já encontrei o campo em que eu quero trabalhar. Programação está em crescimento”, diz. Maria Fernanda Pereira, de 16 anos, acabou de concluir o segundo ano do Ensino Médio em Paulista. Moradora de Igarassu, a 27 km de Recife, planeja cursar medicina. Por ser articulada e expressiva, foi designada pela escola para apoiar novatos e receber visitantes. “É o que aprendemos todos os dias — somos protagonistas das próprias vidas. Só devemos saber planejar.”