Imagem de topo do banner

O que mais precisamos para mudar a Educação é coragem

Publicado em 05/06/2019 às 13:47:16

Jonathan Bergmann costumava ser o centro das atenções em sua escola. O professor de Química se orgulhava de dar uma boa aula, mas diz que entendeu que precisava mudar – e abrir mão dessa atenção. Para avançar a aprendizagem, ele trocou as aulas expositivas por aulas em vídeo e passou tarefas que os alunos deveriam desenvolver em casa, antes de assistir à próxima aula. O resultado: as aulas eram o momento de tirar dúvidas, entender em que ponto estava cada aluno e depois trabalhar estratégias para garantir seu desenvolvimento.

Ao criar o conceito de sala de aula invertida com seu colega Aaron Sams, em 2007, Jonathan Bergmann também estabeleceu que a metodologia abre espaço para relações mais próximas entre professor e aluno. “O bom ensino começa com um bom relacionamento, mas também precisamos acrescentar curiosidade e conteúdo”, sintetiza o professor norte-americano em um de seus vídeos.

O modelo se transformou no Movimento da Sala de Aula Invertida, com direito a 7 livros publicados, conferência e palestras em eventos internacionais. Jon Bergmann, como é mais conhecido, viaja o mundo para mostrar que é possível, sim, implantar a sala de aula invertida em escolas públicas. Em sua última passagem pelo Brasil, ele deu uma aula na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), quando falou sobre a prática da sala de aula invertida, considerando as tecnologias atuais e o engajamento dos alunos. Com 24 anos de vivência em sala de aula, o professor defende que o Brasil teria muito a ganhar adotando o sistema. “É possível mudar da aprendizagem passiva para a aprendizagem invertida, mesmo com tecnologia limitada”, afirma. Se mudarmos todo o sistema de Educação pública, teremos uma mudança que afetará completamente a trajetória histórica da Educação no país”.

 

A seguir, veja os principais trechos da entrevista com Jon Bergmann.

O modelo de Aprendizagem Invertida vem crescendo nos últimos anos, mas ainda estamos presos a alguns métodos mais tradicionais de ensino na maioria dos países. Quais são os maiores desafios que enfrentamos atualmente em Educação?
O maior problema é que ainda estamos ensinando de maneira passiva. A nossa maneira de ensinar não mudou. E ela precisa mudar de aprendizagem passiva para aprendizagem ativa. Aliás, aprendizagem passiva e aprendizagem ativa, mas com um diferencial no componente das relações estabelecidas em sala de aula.

Por que não estamos conseguindo avançar na aprendizagem?
A resposta, na verdade, é que nós estamos emperrados em uma mentalidade tradicional nas escolas. Se pensarmos bem, não custa dinheiro mudar a mentalidade de aprendizagem passiva para aprendizagem ativa, o que requer é uma mudança é vontade e desejo de mudar tanto no coração da liderança nas escolas, assim como no nível dos ministérios, quanto no coração dos professores, para que eles estejam dispostos a assumir o risco e se afastarem gradativamente da aprendizagem passiva para a aprendizagem ativa.

O sr. acredita que a tecnologia por si só é a resposta para uma Educação melhor?
A reposta é não, não, não. Ensinar bem tem a ver com criar relações e adotar aprendizagem ativa. Não tem que envolver sempre tecnologia. Dito isto, eu vejo a tecnologia como um amplificador como uma maneira de fazer com que algo aconteça em maior escala, mas tecnologia não é a resposta. Um bom ensino é e sempre será a resposta para uma Educação melhor.

Que países estão avançando na aprendizagem e que poderiam servir de modelo para o Brasil?
No melhor dos casos, posso apontar um caso que não está muito longe do Brasil, é na Argentina, na província de Misiones, cuja maior cidade é Gran Posadas. Eles estão no meio do processo de mudar completamente o modelo educacional para a aprendizagem invertida – e isso num lugar que não é tão diferente do Brasil. Eles têm desafios econômicos significativos, têm seus problemas, e eles decidiram abrançar a aprendizagem invertida. Acho que esse é o melhor exemplo de como o Brasil pode seguir mudar também para a aprendizagem invertida.

Adotar o modelo de aprendizagem invertida talvez não seja economicamente viável no Brasil. Seria possível adaptar o modelo para que os alunos pudessem ter um ensino mais personalizado?
Eu discordo. Talvez essa ideia de que a aprendizagem criativa não seja economicamente viável no Brasil porque os estudantes não contam com equipamentos [computadores, tablets, smartphones] em casa, ou que a própria escola não conte com tais equipamentos, eu diria que vale olhar para o que está sendo feito na Argentina, em Posadas, onde eles contam com um número limitado de equipamentos. Há desafios? Com certeza. Há questões que teriam de ser superadas? Seria aconselhável investir mais dinheiro em Educação no Brasil? Meu palpite é sim. Mas quero dizer que é possível mudar para aprendizagem invertida com tecnologia limitada. Fizemos isso nos Estados Unidos. Lembre que começamos há 12 anos, e na época, 30% dos nossos estudantes não contava com acesso à internet. Meu palpite é que esse cenário é bem parecido com que se vê em algumas partes do Brasil agora. Eu sei que a aprendizagem invertida pode ser implantada nas escolas públicas brasileiras.

No que se refere à Formação Continuada, o que poderia ser feito para ajudar a mudar a mentalidade dos professores para que tivéssemos profissionais dispostos a explorar novos métodos em lugar de ficarem presos ao método tradicional de ensino?
No fundo, o que será preciso é coragem. Coragem por parte de cada professor. Coragem por parte de cada escola. Coragem por parte de cada governo estadual no Brasil. E coragem nos níveis mais altos de governo no Brasil para fazer esta mudança. É uma mudança que precisa acontecer e que se o Brasil investir nisso, e já existe gente fazendo isso no país, mas estou falando do sistema todo de Educação pública. Se isso for feito, será uma mudança que afetará completamente a trajetória histórica da Educação no país. O Brasil terá uma população com maior nível de Educação, e mais estudantes se tornarão depois os criadores das novas coisas que o mundo precisa hoje. E acredito que por conta do compromisso que será feito, por causa do que está em jogo, e o que está em jogo é o futuro das crianças brasileiras, o que está em jogo é o futuro do Brasil. Será preciso muita coragem para mudar a maneira com que ensinamos porque o problema é como nós ensinamos. Se mudarmos a maneira com que damos aula de aprendizagem passiva para aprendizagem ativa, vai mudar tudo para as escolas brasileiras.